
Marcas das violências
- Katia Gutierre
- há 2 dias
- 2 min de leitura
Quando a violência deixa marcas invisíveis: o impacto da violência doméstica no cérebro das mulheres
A violência doméstica não deixa apenas hematomas, fraturas ou feridas visíveis. Cada vez mais estudos científicos demonstram que a exposição contínua ao medo, às ameaças, às agressões físicas e psicológicas pode provocar alterações significativas no funcionamento do cérebro das vítimas.
Muitas mulheres que sobrevivem à violência relatam dificuldades para lembrar datas, confusão ao narrar acontecimentos, lapsos de memória, ansiedade intensa e dificuldade de concentração. Infelizmente, essas manifestações ainda são frequentemente interpretadas por parte da sociedade e até do sistema de justiça como “inconsistências” ou falta de credibilidade. No entanto, a neurociência aponta para uma realidade muito diferente.
Pesquisas realizadas por especialistas em neuropsicologia da violência de gênero demonstram que o estresse crônico causado pela violência pode afetar regiões cerebrais responsáveis pela memória, pelas emoções e pela tomada de decisões, como o hipocampo, a amígdala e o córtex pré-frontal. Essas alterações podem comprometer a capacidade da vítima de recordar fatos com precisão, especialmente eventos traumáticos.
Isso significa que a dificuldade em lembrar detalhes não deve ser interpretada como sinal de mentira ou contradição. Pelo contrário: em muitos casos, pode ser uma consequência direta do trauma sofrido.
Além das agressões físicas, situações como ameaças constantes, humilhações, controle psicológico, perseguição e estrangulamentos podem gerar impactos neurológicos profundos e duradouros. O agressor não fere apenas o corpo da mulher; ele também pode comprometer o funcionamento do cérebro que, posteriormente, será chamado a relatar a violência vivida.
Diante desse cenário, especialistas defendem a ampliação do uso de avaliações neuropsicológicas em casos de violência doméstica, permitindo que os efeitos do trauma sejam compreendidos de forma mais ampla e humanizada. Reconhecer essas sequelas invisíveis é fundamental para evitar a revitimização das mulheres e garantir que seus relatos sejam analisados com a sensibilidade e o conhecimento técnico necessários.
A luta contra a violência doméstica também passa pelo reconhecimento de seus impactos invisíveis. Quando uma mulher apresenta dificuldades de memória após anos de violência, o problema não é sua credibilidade. O problema é a violência que deixou marcas profundas em sua mente e em seu cérebro.
Acolhimento Mulher
Toda mulher merece ser ouvida com respeito, acolhida sem julgamentos e protegida contra todas as formas de violência. Compreender os efeitos do trauma é um passo essencial para construir uma rede de proteção mais justa, humana e eficaz para as sobreviventes.
Violência doméstica não causa apenas dor física. Ela pode deixar cicatrizes invisíveis que acompanham a vítima por muitos anos. 💜🧡

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